Por que trazemos o feminismo?

O feminismo vem ocupando espaços cada vez mais diversos de debate. Acompanhando este ganho de consciência, decidimos trazer este recorte para as discussões propostas neste blog. A desigualdade de gênero é estrutural e, por conta disso, é possível identificar seus efeitos em diversos contextos, uma vez que independe de idade, de classe, de cor, de renda ou de local. Por isso, se mostra importante trazer o feminismo e a desigualdade de gênero também para o debate sobre direito, artes, economia criativa e cultura, rompendo com estigmas que muitas vezes se apresentam confortáveis moralmente.

 

Como advogadas, trazer a discussão feminista para o Direito é de vital importância para conferir sentido àquilo que fazemos e tornar este ambiente mais igualitário. A área jurídica vem sendo cada vez mais povoada por mulheres, seja nos cursos de graduação, seja na advocacia ou na ocupação de cargos públicos e de poder. Então por que ainda insistimos em trazer a discussão? Porque embora hoje estejamos presentes nestes espaços, os valores que os norteiam ainda não correspondem àqueles que deveriam amparar direitos humanos efetivamente amplos. Ainda há muito classismo, racismo, LGBTIfobia e machismo. Não raros são os casos em que institutos de proteção são usados contra as mulheres. Teremos oportunidade para trazer essas questões em outro momento. Mas o que importa resumir por ora é que o Direito é uma amostra bastante visível acerca da ideologia por trás de uma sociedade, o que, por si só, implica na reprodução de padrões machistas.

 

Nesse mesmo sentido, a Arte é um espaço privilegiado para identificar as ideologias de uma sociedade. O patriarcado claramente se apresenta nesses espaços, disfarçado de livre expressão artística. A desigualdade de gênero é facilmente detectada pelos papeis que as mulheres ocupam nesses espaços. Virginia Wolf fez um diagnóstico sobre isso no início do século passado em A Room of One’s Own – afinal, em que contexto uma mulher conseguiria produzir artisticamente? Não apenas tinham dificuldade de acesso à instrução formal como sequer contavam com um mínimo de privacidade para poderem produzir em paz. Pois o tempo, assim como o corpo das mulheres, foi tido historicamente como de todos, menos delas. É como se o papel da mulher no mundo artístico fosse ora de musa, ora de fã, e apenas recentemente como produtora. Pois há pouca gente de fato disposta a investir em artistas mulheres. E elas ainda são questionadas a todo o tempo acerca de suas capacidades e conduzidas a certas trivialidades pela mídia, mais preocupada com suas roupas do que com o seu trabalho.

 

Outro nível de análise interessante é o conteúdo das performances artísticas. Como a mulher é retratada nessa músicas, nesses filmes, nesses curtas? Quais os espaços que nós conseguimos de fato ocupar? Que vozes são ouvidas?

 

Quanto à Economia Criativa, esta vem sendo uma resposta comum de várias gestões públicas para garantir o acesso de mulheres à autonomia financeira, de maneira a favorecer iniciativas criativas, especialmente para mães que tenham que conciliar essas atividades com a criação dos filhos e as tarefas domésticas não remuneradas. Ainda que seja uma tentativa promissora, o grande desafio é garantir que seja feita de uma maneira efetivamente feminista e que de fato garanta a autonomia econômica e o desenvolvimento pessoal das mulheres contempladas, sem que reforce os papeis e funções tradicionalmente femininos – como culinária, corte e costura e artesanato.

 

Não basta trazer as mulheres para a discussão. É necessário que o discurso realmente esteja comprometido com um olhar feminista que vise à verdadeira emancipação das mulheres e o fim da desigualdade de gênero.

 

Por isso, a proposta do Eu, tu, elas é trazer reflexões feministas para o espaço do Instituto, de modo a contribuir para o aprofundamento crítico do debate com o propósito de empoderamento das mulheres no direito, na arte, na economia criativa e na cultura. Vamos juntas?

 

 

Photo by gabiborghi. In: PhotoPin.