O Papel da Mídia na Estereotipação da Mulher Vítima de Violência e a Perpetuação da Cultura do Silenciamento

No último mês, casos de violência contra a mulher ganharam as mídias e redes sociais, suscitando o debate a respeito do tema. Violências que são cotidianas na vida de muitas mulheres brasileiras anônimas tornaram-se manchete devido à particularidade de, desta vez, terem ocorrido no meio de pessoas famosas. Os casos envolvendo o assédio sexual denunciado pela figurinista da Rede Globo, Su Tonani, cometido pelo ator José Mayer; e as agressões acobertadas pelas câmeras tanto do Big Brother Brasil quanto elevador do prédio do cantor Victor Chaves (da dupla sertaneja Victor & Leo), jogaram luz a uma dura realidade da qual as brasileiras – inclusive as mais socialmente privilegiadas – partilham.

 

A violência contra as mulheres é muito mais imbricada na nossa sociedade do que podemos imaginar. Ela se apresenta em muitos momentos e é legitimada por uma cultura que ainda naturaliza o gênero feminino em sua opressão social. Apesar de os movimentos sociais estarem cada vez mais articulados e fortalecidos, ainda enfrentamos enorme resistência na luta pela equidade de gênero.

 

Os casos que ganharam as manchetes no mês passado revelaram um aparente interesse da mídia em discutir a questão. Aparente, porque os mais recentes episódios deixam claro que o assunto só merece destaque quando é conveniente aos veículos de comunicação. Em seu modus operandi normal, parece mais vantajoso manter e reforçar o status quo da opressão. Vejamos.

 

Em abril passado testemunhamos a denúncia de assédio moral e sexual que a figurinista Su Tonani fez contra o ator José Mayer. A maneira como a situação se desenrolou foi muito ilustrativa: enquanto a vítima foi publicamente atacada, sendo acusada de supostamente ter tido um caso com seu agressor e, em consequência, demitida, o ator foi afastado por seis meses até a história ser esquecida das manchetes e poder retornar ao seu cargo de prestígio. Ela foi condenada publicamente nos tribunais das redes sociais ao ostracismo e à vergonha, enquanto o agressor foi ainda visto como um coitado que poderia ter sua carreira prejudicada por uma oportunista, e que agora está tirando férias até a “poeira baixar”.

 

A mobilização que mulheres trabalhadoras da Rede Globo fizeram, por meio da campanha #mexeucomumamexeucomtodas, foi muito importante para mostrar para mulheres que ainda não tiveram contato com pautas feministas como é importante que atuemos conjuntamente contra as opressões e violências que sofremos diariamente.

 

No entanto, agora, menos de um mês depois do ocorrido, recebemos a triste notícia de que ao menos duas novelas da Rede Globo terão denúncias falsas de violência doméstica. Na novela “Rock Story” a personagem Mariane (Ana Cecília Costa) forjará uma agressão por parte de Gui (Vladimir Brichta). A ideia supostamente virá de Lázaro (João Vicente de Castro), que sugere que a moça grave um vídeo com a falsa acusação.

 

Também em “A Força do Querer”, Cibele (Bruna Linzmeyer) vai “exagerar” o fato de Ruy (Fiuk) a ter segurado pelo braço. “Me agrediu, quase quebrou meu braço, torceu meu braço, até arrebentou minha pulseira!”, ela vai alegar, na delegacia. “Estou com o ombro todo doído, de quando ele me empurrou”.

 

Qual é a mensagem que nos é passada com esse tipo de escolha política de um grande canal de comunicação? Estamos reforçando o estereótipo de que não há violência contra a mulher e que, quanto ela oferece uma denúncia, está fazendo apenas para prejudicar o pobre homem que terá sua vida arruinada por uma denúncia caluniosa. Ou que ela está exagerando e se vitimizando demais, o famoso “mimimi”. Para os milhões de espectadores que assistem a essa rede de televisão, e que espelham as novelas como se vida real fossem, fica ainda mais óbvia a associação de que essa supostamente é a realidade: mulheres são loucas, mentirosas e histéricas.

 

Seria mera coincidência que a cena proposta para a novela A Força Do Querer seja muito semelhante à ocorrida na vida real, dentro da própria emissora, no programa Big Brother Brasil? Para refrescar a memória, no reality show, o participante Marcos Harter segura Emilly Araújo pelo braço e ela reclama que ele a está machucando. Ela fica com marcas no corpo, que levaram inclusive o participante a ser indiciado pelo crime de lesão corporal. É estranho que, menos de um mês depois, a mesma cena apareça como “exagero” da mulher na novela da mesma emissora de televisão. Também é bastante curioso que na novela Rocky Storie, a personagem resolva gravar um vídeo com uma “falsa acusação” de violência de gênero, e que a figurinista Su Tonani também tenha feito sua denúncia publicamente, alertando a todos do que estava acontecendo.

 

Ora, os fatos não podem ser vistos de maneira isolada.

 

As decisões políticas da Rede Globo em retratar a violência contra a mulher como algo fantasioso e inverídico vai exatamente no mesmo sentido de  outras propostas sociais que buscam reforçar o silenciamento das mulheres, como a Sugestão Legistativa n. 07/2017, que quer tornar crime hediondo a falsa denúncia de estupro. Esta é uma medida de iniciativa popular que quer basicamente acabar com quaisquer possibilidades de as mulheres vítimas de violência sexual buscarem reparação na justiça. E é para reforçar esse tipo de atrocidade que a Rede Globo – nosso principal canal de responsabilização – está produzindo seu conteúdo em horário nobre.

 

Trata-se de uma violência institucional contra as mulheres. Trata-se de uma mordaça moral que servirá apenas para desacreditar completamente as vítimas que morrem diariamente por conta da violência doméstica. Ao invés de empoderar suas telespectadoras e conscientizar seus telespectadores, a Rede Globo escolheu perpetuar essa cultura de violência e de silenciamento feminino, com um entretenimento não apenas irresponsável, como cruel. Não precisamos que mulheres sejam ainda mais desacreditadas em suas denúncias. Precisamos, ao contrário, valorizar a palavra da vítima.

 

Importante reforçar qual é a realidade das mulheres que passam por situação de violência. Um dos maiores problemas que observamos nesse tipo de caso é justamente a forma como tratamos as vítimas nas instituições que deveriam apoiá-las. Já é muito difícil para uma mulher se reconhecer como em situação de violência e decidir pela responsabilização de seu agressor. Mas o pior acontece quando ela (finalmente!) reúne as suas energias para levar uma denúncia adiante, uma vez que é desencorajada e desacreditada, seja pelos seus concidadãos, seja pela polícia e pelo judiciário. E isso implica no silenciamento compulsório dessas mulheres, que são forçadas, muitas vezes, a deixar a situação como está.

 

O Brasil é signatário da Convenção de Belém do Pará, que busca PREVENIR, PUNIR E ERRADICAR A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER. Por conta disso, o Estado Brasileiro é diretamente responsável por garantir que haja políticas para a superação dessa realidade opressora, que faz com que a cada duas horas uma brasileira morra em situação de violência. A responsabilidade para alterar esse quadro nefasto não é apenas do Estado e de suas instituições diretas: a mídia, especialmente um canal com o poder que a Rede Globo usufrui, tem uma contribuição direta, bem como responsabilidade pelo tipo de propagação ideológica que faz.

 

Ao produzir esse tipo de conteúdo, em duas novelas em horário nobre, a Rede Globo não está apenas “mostrando como uma situação dessas pode acontecer na prática”. Ela está perpetuando diretamente a cultura misógina de estereotipação das mulheres vítimas de violência, acarretando subsequente silenciamento. É necessário não apenas que o conteúdo seja banido, como também que a Rede Globo seja responsabilizada por suas condutas. E pelo menos, quanto a isso, os episódios ocorridos na própria emissora deixaram o recado: mexeu com uma, mexeu com todas.